Catarina

Nada de especial na primeira impressão. Ela não pararia quarteirões, digo até que dificilmente é notada por onde passa. Tem a cara sempre fechada com cada traço, cada expressão lacônica carregada de decepções e tristezas. Nunca parou solteira, sempre conquistou caras que não precisam de dançarinas do Faustão. Mas em cada olhada, até quando sorri, é notável um pedacinho de solidão, que deixa escapar por onde passa. Tem um jeito de andar especial, delicado, como quem anda em um piso escorregadio, recém lavado. Toma todo o cuidado para não sujar, nem cair. Tem um bom senso de humor e tem até bom gosto. Tenta, por vezes, e sem sucesso, transparecer algo que não é, como cada ser humano, mas nunca me enganou. Enganou aos outros, não a mim. Com os olhos negros, cruéis e tentadores da música “chão da praça”, ela atua, mostra força, mostra fraqueza, mas sempre via algo a mais, o problema é que nunca pude saber que diabos era esse “algo a mais”.

Já quase me apaixonei por Catarina várias vezes, e tenho até impressão dela já ter percebido as minhas tentativas de flertes, que por vezes, ela até retribuía. Nossas conversas, quando sozinhos, sempre soltavam algo no ar, algo intocável, irreconhecível. Com algumas bebidas já cheguei a pensar “um dia ela será minha”, com mais algumas já me vi entre seus braços, e tenho a impressão de que ela já meditou sobre a hipótese também, entretanto sou tolo e inteligente o suficiente para saber que nunca daria certo. “Chão da praça” já teve várias versões, várias vozes. Catarina é da versão de Caetano Veloso, e não há uma vez que Caetano cante no “Multishow ao vivo” que meu coração não me leve para os olhos de Catarina. Só Caetano, no início da música, e a frase “olhos negros cruéis tentadores”, sem guitarras, sem bateria, sem baixo, numa música que nem consigo dizer ao certo se gosto ou não.

Há naqueles olhos o mistério ideal, que mentem e confundem, mas que, principalmente, convidam. 

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