Dela

Tinha algo a mais, algo que não era explicito, mas que queria ganhar maiores proporções e, por isso, acabava se mostrando aos poucos, como um streap tease eterno. Cada detalhe era importante, cada detalhe era a coisa mais importante da minha vida. Era como se eu estivesse prestes a descobrir todas as verdades ocultas, é como se finalmente as coisas começassem a fazer sentido. Era o menino de 15 anos, descobrindo detalhes escondidos no corpo de uma mulher, era o prazeroso rumo ao desconhecido. Mas eu já tinha meus 20, não era exatamente um garoto, e o fato de eu estar tão perto, e de sentir que seria arriscado, fazia crescer algo dentro de mim. Em poucos minutos eu já estava dominado por aquilo. Era uma nova face que eu descobria a partir do quebra-cabeça que ela exigia que eu montasse. Não era sobre sexo, não era sobre uma aventura. Era mais.

Eu passava a acreditar em um final feliz, mergulhando em todas as ilusões que alguém pode ter. Todas provocadas por ela, a mulher que sabia exatamente o que fazia, e me transformava em mera peça de mais um joguinho insignificante. As paredes começavam a diminuir, e ela colocava os pés sobre a mesa depois de mudar todos os móveis de lugar. Eu passava a dormir com a cara no chão, com a cama nas costas.

Alguns chamam de indescritível, de impossível de interpretar e definir. Eu estava entregue às pistas que ela dava cuidadosamente. Algo que poderia demorar dias, meses, o quanto eu pudesse agüentar e o quanto ainda tivesse graça para ela. E meus caros, confesso que já estava quase no meu limite. Aliás, a situação toda me fez acostumar a caminhar no meu limite, à espera da última gota d’água. Era divertido para ela me ver desorientado, cauteloso e atento. Eu só tinha as minhas frases e a espera por um olhar cínico, crítico, irônico, sincero, ou, enfim, e muito improvável, sereno.

A serenidade estava muito longe de mim, ela era como areia movediça, engolindo todo o meu corpo, me deixando sem saída. Aquela mulher que começava a despertar o meu ódio, a minha fúria e, rapidamente, o meu amor. Criando uma descrição clara do que era aquele sentimento despertador de clichês, que era impossível achar qualquer definição. O amor, em mim, era euforia. Parecia que qualquer frase, qualquer movimento, colocava todo o meu ser para dentro de algo que jamais poderia me livrar. Estava definido: eu era, por inteiro, dela.

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