Conversa de bar número 01

(barzinho, música num volume aceitável)

Eis dois amigos:

- Cara, apesar de nos apresentarmos com nosso lado A, todo mundo tem um lado B, é inegável. Cada um com suas hidden tracks e easter eggs que poucos descobrem. É, campeão, é isso mesmo que quero dizer. Somos todos como velhos vinis, romantizados, supervalorizados, e também, por que não? Empoeirados.

- Puta que pariu, como era o nome daquele programa antigo da TV Cultura mesmo?

- Porra, pode ver. Sempre nos apresentamos com o nosso lado A, que nos discos seria uma espécie de lado mais comercial, pra atrair mais as grandes multidões, e é mais ou menos assim que agimos socialmente. Você deveria pensar mais nessas coisas, sei lá, que tal um café preto?

- Lembrei, é “senta que lá vem história”, haha, grande programa.

- E o Didi Mocó? Lembra dele também?

- Sim, grande Didi.

- Então… Cara, são poucos que dão moral pro lado B dos discos, alguns por não terem capacidade para uma apreciação mais detalhada, outros por ficarem traumatizados pelo lado b do “Abbey Road”.

- Cara, o “Abbey” é o melhor dos Beatles, não fala besteira, se você não entende as faixas curtas o problema é seu.

- O melhor é o “Revolver”, mas deixa eu continuar…

- Vai logo.

- haha, então, só quando o ouvinte vai mais a fundo na obra, consegue sacar as hidden tracks e achar os easter eggs. É o tipo de coisa que não se nota na primeira vez que se ouve o disco, assim como é impossível conhecer uma pessoa com uma mera “primeira vista”.

- Eu me importo com a primeira vista, e acredito fielmente nela.

- Por exemplo?

- Por exemplo você, lembro da primeira vez que te vi “nerd patético”, não deu outra. Na lata! A Claudinha, lembra dela? Peito, bunda, rosto amigável e…

- Rosto amigável?

- Sim, pô, deixei você falar um tempão, agora espera.

- haha, ok

- Então… Peito, bunda, rosto amigável… Gostosa, pronto. Não tem segredo, o seu problema é que fica ai, pensando pra caralho, romantizando as coisas e depois volta pra casa chorar ouvindo aquela porcaria de Los Hermanos.

- Tá, não vou cair na do Los, porque eu sei que aí você só apela.

- Apelo? É ruim mesmo, uma bela de uma grande merda.

- Ok, ok, e você acaba de chegar no ponto, meu caro.

- Pronto, acabei de chegar na pior parte, na chave de bosta.

- hahaha, então, caríssimo. Somos como discos sim. Só um bom ouvinte consegue uma maior percepção do disco, e o mesmo vale para nós. Só quem quer, de fato, ir a fundo na vida de alguma pessoa consegue retirar dela o que ela é, saber de seus detalhes, aumentando o tato mesmo. É por isso que há várias bandas com números incontáveis de fãs.

- Igual Los Hermanos e o número incontável de babaca, que é só você mesmo. E outra coisa, seu bundão, nem todo mundo quer esse tipo de coisa, isso ai de conhecer cada, espera, dessa você vai gostar, hahaha

(silêncio)

- vai, caralho! Fala logo!

- hahaha, nem todo mundo quer conhecer cada acorde de uma pessoa. Pode me aplaudir, eu deixo.

- Poeta.

- hahaha

- Então, cara. Quem tem um ouvido fácil acaba optando por andar longe do difícil, prefere essas porcarias que lançam por ai. O mesmo vale pras relações humanas, nem todo mundo tem o tato das coisas, de querer conhecer de verdade uma pessoa. Pode me chamar de romântico ou coisa parecida, mas eu faço questão dessas coisas.

- Por isso que é o otário que é, que leva as coisas tão a sério. Não precisa ser nenhum gênio pra saber que o mercado é dominado por porcarias. E cara, estamos todos nesse inferno insuportável, a melhor opção é abraçar o diabo e jogar o jogo dele. Sem essa de sentimentalismos, de escolhas trabalhadas e tal, como você costuma fazer.

- Mas não adianta, você sabe que eu não mudo, e eu tenho certeza que vou chegar em algum lugar. Tenho muito mais chances de ter algo sério na minha vida do que você com esse tipo de pensamento. Pensamento este, aliás, que dá razão as porcarias que existem por ai. Você alimenta a babaquice do mundo sorrindo. E não vou mentir, já quis ser assim como você, mas não vou ser, porque eu sei, eu sei que vou conseguir uma relação estável, saudável e etc., enquanto você vai continuar desacreditado, abraçado com porcarias. Dessas que o máximo de intelecto é tirado daquela porra do Beirut, que só tem uma música que presta, ou seja, 5 minutos de diversão. E é só.

- Puta que pariu, incrível como você é radical nessas coisas, puta-que-pariu! Custa aceitar o meu jeito? Você acha que eu não queria ter algo assim como você falou? E você sabe, eu já tive, e não foi legal. Prefiro assim, levar a vida tranquilo, não preciso ter do meu lado alguém que cite Dostoiévski a cada 2 frases.

- Agora você se exalta? Falou tudo isso do meu jeito de ver as coisas e agora vomita essas merdas? Você é como eu, só que é teimoso demais pra concordar. Só lamento o fato de você tender a se machucar mais daqui pra frente, aposto contigo que vai chegar uma hora que essas porcarias que você come irão contra você. Será como colesterol. Comer bacon de vez enquanto não tem problema nenhum, agora fazer dele o único prato é certeza de um futuro de merda.

- Pô, agora você vai foder com o bacon? Puta que pariu. Parece aquela vez que ficou usando o “Let it be” como piadinha. Babacão mesmo.

- E o “Let it be” não é piada? Aliás, depois do “Let it BLEED”, dos Stones, a piada ficou completa.

- Lá vem você falar dessa outra merda, só falta agora querer vir com Botafogo e coisa e tal. Puta que pariu.

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