Uma dose de desperdício total, por favor

Steve Carell interpreta um homossexual rejeitado, suicida, e estudioso de Marcel Proust em “Pequena Miss Sunshine”. E é numa conversa com Paul Dano, ídolo de Nietzsche, que surge um dos diálogos mais interessantes do filme. Dwayne (Dano), após perceber que é daltônico e por isso não poderá alcançar seu sonho de ser piloto de caça, reclama para o seu tio Frank (Carell) sobre suas infelicidades da vida, e da vontade de querer “dormir até chegar aos 18” (Dwayne tem 15).
Frank pergunta para o seu sobrinho se ele conhece algo do homem que ele ensina (Proust), e Dano mostra total desconhecimento. Então, o tio, para dar exemplo melhor que o pai – um desses palestrantes aspirante a escritor de livros de autoajuda – cita o ícone francês para explicar um pouco sobre a vida.
“Bem, ele chegou ao fim de sua vida. E, refletindo, decidiu que todos os anos que ele sofreu foram os melhores de sua vida, pois fizeram-no ser quem era. Os anos em que foi feliz? Desperdício total. Não aprendeu nada. Então se você dormir até os 18 anos… Putz, pense em todo o sofrimento que você irá perder. Colégio? Os anos de maior sofrimento. Não se consegue sofrer mais do que isso.”
Deixando o lado cômico de lado, fato corriqueiro no ótimo “Pequena miss sunshine”, a mensagem é bem clara, profunda e para ser pensada. Todos esses anos em que sofremos também aprendemos e nos moldamos. Não é querer dar razão a “Tabula Rasa”, do John Locke, mas ter esse reconhecimento é fundamental. Paciência é importante, e que venham os desperdícios!

