O final de domingo habitual

Passava das 3 da manhã e o que se via era uma coberta agitada e um travesseiro abraçado com força suficiente para sufocar 50 homens. Havia um livro lido pela metade, ao lado, na estante, pertinho da cama, e um relógio com os olhos tremendamente abertos. Os desgraçados olhos do relógio. A hora ali, verde, brilhante, e claro, desgraçada. Desgraçada porque há um compromisso logo de manhã, e não é só um compromisso, é a porcaria do compromisso importantíssimo, na porcaria do trabalho.

Sabe aquelas coisas que achamos que é sempre problema dos outros? Coisas que jamais fariam parte de nós? Então, para mim insônia era isso. Eu não tinha insônia, só não estava conseguindo ter uma boa noite de sono. Talvez por não lembrar da última vez que fui verdadeiramente feliz, ou então por ser a pessoa mais solitária que conheço. Coisas interessantes e pontuais estas que acabei de dizer, mas também coisas que não deveriam ser ditas. Eu deveria estar dormindo, e obviamente não estou.

Às vezes tenho a impressão que só tive momentos felizes na infância, quando mais fui inocente, quando era dominado pela ignorância, não tinha obrigações e meus atos não tinham valor algum. Era mais fácil ver as meninas como patéticas, alienígenas. Olhar para o amor com nojo, e nas minhas viagens mais profundas, em minhas brincadeiras mais longas, ser um herói, ter algum valor, ter alguma força. Na infância esse tipo de mentira tinha toques de realidade, podia ver claramente os meus golpes, os meus superpoderes, eu ajudava o mundo, na fantasia sim, mas quando a fantasia tinha todo o sentido.

Hoje passo muito longe de somar, tenho a impressão de não ser notado, e o fato de eu ser um fracasso na parte sentimental, faz criar um peso sobre as costas do qual mal posso carregar. E é por isso, que ando por todos os cantos me arrastando, e me lamentando, sonhando em conseguir enxergar um futuro diferente deste.

Vinícius de Moraes cantou muito, para várias pessoas, que a tristeza sempre deixa uma esperança, e vou contar uma coisa, meu peito já se cansou de tantas vezes que ouvi Vinícius falando de esperança, que de fato, também sinto quando penso com mais racionalidade. Até porque, pior do que já estou dificilmente ficaria. Tenho emprego estável com sobras para comprar algum lazer. Fora o fato de eu ainda manter um sonho de ser escritor.

Não acho que de fato um dia escreverei um livro, pois sou medroso demais. Não tenho coragem de me expor, minha autoestima não chega a tanto. Tudo que já escrevi até hoje joguei fora logo em seguida, e esse tipo de coisa sempre me fez sentir pior ainda. Mas como dizem os críticos da Idade Média e, principalmente, o Duas Caras, quando ainda era o promotor público Harvey Dent: “é a hora mais escura da noite que precede o amanhecer”. Ou seja, esperança nunca me faltou, o problema da minha vida é que esse tal dia cisma demais em amanhecer, o que só corrobora com o que digo tanto: eu sou a pessoa mais paciente que conheço.

Com tantos pensamentos perdidos nessa noite tão escura, que só não é mais escura por conta daquele relógio, a representação da responsabilidade do mundo, com aquele horário todo verde, brilhante e esmagador. Sim, tenho raiva dos relógios, até uma pessoa paciente pode ter raiva de coisas pequenas.

Vou me entregar, vou ascender a luz e tentar ler alguma coisa, vou ler aquele livro interessante da estante, do qual já estou na metade. Mas ler agora? Se eu ler agora não vou ter absolutamente nada para fazer depois a não ser ficar pelos cantos, lamentando-me.  Acho que o melhor seria eu escrever. Sim, irei escrever.

(30 minutos depois)

Escrevi sobre várias coisas, todas patéticas, o que me fez parecer mais patético que eu era. Até na solidão do meu quarto pude sentir os olhos do mundo, pesados sobre as minhas costas, atentos a cada porcaria que eu pensava e escrevia. E ter essa sensação horrorosa me fez bem, tá, bem não fez, mas pelo menos me fez dormir.

O problema foi que duas horas depois o despertador tocou. Não pude acreditar, o mundo é mesmo uma grande merda. Senti uma vontade enorme de urrar e socar tudo que estivesse ao meu redor. Mas claro que não fiz isso, não ainda.

Fui caminhando ainda meio tonto para o banheiro com a intenção de escovar os dentes, com a raiva pulsando em minhas veias, com sono qualquer ser humano pacífico poderia se tornar um monstro. O meu passo foi cada vez mais pesado, eu queria que o mundo todo ouvisse cada paulada que dava com os pés: “escutem seus filhos da puta, este sou eu com minha resposta”.

Cheguei ao banheiro batendo a porta, e não vou mentir, não quero mentir, cada explosão que eu causava me enchia de prazer. Eu definitivamente colocava a culpa do fato de eu estar com um sono terrível, sem poder dormir, em toda a sociedade, mesmo com a minha racionalidade cochichando, me avisando que era injusto. Avistei o tubo de pasta de dente e fui começar a minha rotina miserável, mas é claro que eu tinha que ser barrado de dar continuidade às minhas porcarias patéticas de todos os dias.

A pasta tinha acabado e não me restou outra opção além de arremessá-la para dentro do lixo, fazendo-o tombar. As minhas veias vibravam, era o êxtase! Não contente com o pequeno incidente, dei um belo e sonoro murro na pia, o desfecho perfeito para toda a babaquice.

A dor da minha mão, que foi do tamanho da estupidez da ação, fez-me patético, como é habitual eu me sentir. A raiva deu lugar a uma pesada onda de depressão, de tristeza. Batendo na pia do banheiro, acabei criando um aviso interminável do quanto eu era um imbecil. Cada vez que a minha mão avisava o meu cérebro da dor insuportável eu me diminuía mais ainda.

Lavei meu rosto, coloquei a mão na água e com as coisas mais claras, fui até o meu estoque de pastas compradas na promoção, abri uma das embalagens e pude, enfim, ser um pouco mais normal. Escovei os dentes, segui para o banho e para o ponto de ônibus. Que bom que chegou segunda-feira.

Tags: contos

Conversa de bar número 01

(barzinho, música num volume aceitável)

Eis dois amigos:

- Cara, apesar de nos apresentarmos com nosso lado A, todo mundo tem um lado B, é inegável. Cada um com suas hidden tracks e easter eggs que poucos descobrem. É, campeão, é isso mesmo que quero dizer. Somos todos como velhos vinis, romantizados, supervalorizados, e também, por que não? Empoeirados.

- Puta que pariu, como era o nome daquele programa antigo da TV Cultura mesmo?

- Porra, pode ver. Sempre nos apresentamos com o nosso lado A, que nos discos seria uma espécie de lado mais comercial, pra atrair mais as grandes multidões, e é mais ou menos assim que agimos socialmente. Você deveria pensar mais nessas coisas, sei lá, que tal um café preto?

- Lembrei, é “senta que lá vem história”, haha, grande programa.

- E o Didi Mocó? Lembra dele também?

- Sim, grande Didi.

- Então… Cara, são poucos que dão moral pro lado B dos discos, alguns por não terem capacidade para uma apreciação mais detalhada, outros por ficarem traumatizados pelo lado b do “Abbey Road”.

- Cara, o “Abbey” é o melhor dos Beatles, não fala besteira, se você não entende as faixas curtas o problema é seu.

- O melhor é o “Revolver”, mas deixa eu continuar…

- Vai logo.

- haha, então, só quando o ouvinte vai mais a fundo na obra, consegue sacar as hidden tracks e achar os easter eggs. É o tipo de coisa que não se nota na primeira vez que se ouve o disco, assim como é impossível conhecer uma pessoa com uma mera “primeira vista”.

- Eu me importo com a primeira vista, e acredito fielmente nela.

- Por exemplo?

- Por exemplo você, lembro da primeira vez que te vi “nerd patético”, não deu outra. Na lata! A Claudinha, lembra dela? Peito, bunda, rosto amigável e…

- Rosto amigável?

- Sim, pô, deixei você falar um tempão, agora espera.

- haha, ok

- Então… Peito, bunda, rosto amigável… Gostosa, pronto. Não tem segredo, o seu problema é que fica ai, pensando pra caralho, romantizando as coisas e depois volta pra casa chorar ouvindo aquela porcaria de Los Hermanos.

- Tá, não vou cair na do Los, porque eu sei que aí você só apela.

- Apelo? É ruim mesmo, uma bela de uma grande merda.

- Ok, ok, e você acaba de chegar no ponto, meu caro.

- Pronto, acabei de chegar na pior parte, na chave de bosta.

- hahaha, então, caríssimo. Somos como discos sim. Só um bom ouvinte consegue uma maior percepção do disco, e o mesmo vale para nós. Só quem quer, de fato, ir a fundo na vida de alguma pessoa consegue retirar dela o que ela é, saber de seus detalhes, aumentando o tato mesmo. É por isso que há várias bandas com números incontáveis de fãs.

- Igual Los Hermanos e o número incontável de babaca, que é só você mesmo. E outra coisa, seu bundão, nem todo mundo quer esse tipo de coisa, isso ai de conhecer cada, espera, dessa você vai gostar, hahaha

(silêncio)

- vai, caralho! Fala logo!

- hahaha, nem todo mundo quer conhecer cada acorde de uma pessoa. Pode me aplaudir, eu deixo.

- Poeta.

- hahaha

- Então, cara. Quem tem um ouvido fácil acaba optando por andar longe do difícil, prefere essas porcarias que lançam por ai. O mesmo vale pras relações humanas, nem todo mundo tem o tato das coisas, de querer conhecer de verdade uma pessoa. Pode me chamar de romântico ou coisa parecida, mas eu faço questão dessas coisas.

- Por isso que é o otário que é, que leva as coisas tão a sério. Não precisa ser nenhum gênio pra saber que o mercado é dominado por porcarias. E cara, estamos todos nesse inferno insuportável, a melhor opção é abraçar o diabo e jogar o jogo dele. Sem essa de sentimentalismos, de escolhas trabalhadas e tal, como você costuma fazer.

- Mas não adianta, você sabe que eu não mudo, e eu tenho certeza que vou chegar em algum lugar. Tenho muito mais chances de ter algo sério na minha vida do que você com esse tipo de pensamento. Pensamento este, aliás, que dá razão as porcarias que existem por ai. Você alimenta a babaquice do mundo sorrindo. E não vou mentir, já quis ser assim como você, mas não vou ser, porque eu sei, eu sei que vou conseguir uma relação estável, saudável e etc., enquanto você vai continuar desacreditado, abraçado com porcarias. Dessas que o máximo de intelecto é tirado daquela porra do Beirut, que só tem uma música que presta, ou seja, 5 minutos de diversão. E é só.

- Puta que pariu, incrível como você é radical nessas coisas, puta-que-pariu! Custa aceitar o meu jeito? Você acha que eu não queria ter algo assim como você falou? E você sabe, eu já tive, e não foi legal. Prefiro assim, levar a vida tranquilo, não preciso ter do meu lado alguém que cite Dostoiévski a cada 2 frases.

- Agora você se exalta? Falou tudo isso do meu jeito de ver as coisas e agora vomita essas merdas? Você é como eu, só que é teimoso demais pra concordar. Só lamento o fato de você tender a se machucar mais daqui pra frente, aposto contigo que vai chegar uma hora que essas porcarias que você come irão contra você. Será como colesterol. Comer bacon de vez enquanto não tem problema nenhum, agora fazer dele o único prato é certeza de um futuro de merda.

- Pô, agora você vai foder com o bacon? Puta que pariu. Parece aquela vez que ficou usando o “Let it be” como piadinha. Babacão mesmo.

- E o “Let it be” não é piada? Aliás, depois do “Let it BLEED”, dos Stones, a piada ficou completa.

- Lá vem você falar dessa outra merda, só falta agora querer vir com Botafogo e coisa e tal. Puta que pariu.

Tags: contos

Dela

Tinha algo a mais, algo que não era explicito, mas que queria ganhar maiores proporções e, por isso, acabava se mostrando aos poucos, como um streap tease eterno. Cada detalhe era importante, cada detalhe era a coisa mais importante da minha vida. Era como se eu estivesse prestes a descobrir todas as verdades ocultas, é como se finalmente as coisas começassem a fazer sentido. Era o menino de 15 anos, descobrindo detalhes escondidos no corpo de uma mulher, era o prazeroso rumo ao desconhecido. Mas eu já tinha meus 20, não era exatamente um garoto, e o fato de eu estar tão perto, e de sentir que seria arriscado, fazia crescer algo dentro de mim. Em poucos minutos eu já estava dominado por aquilo. Era uma nova face que eu descobria a partir do quebra-cabeça que ela exigia que eu montasse. Não era sobre sexo, não era sobre uma aventura. Era mais.

Eu passava a acreditar em um final feliz, mergulhando em todas as ilusões que alguém pode ter. Todas provocadas por ela, a mulher que sabia exatamente o que fazia, e me transformava em mera peça de mais um joguinho insignificante. As paredes começavam a diminuir, e ela colocava os pés sobre a mesa depois de mudar todos os móveis de lugar. Eu passava a dormir com a cara no chão, com a cama nas costas.

Alguns chamam de indescritível, de impossível de interpretar e definir. Eu estava entregue às pistas que ela dava cuidadosamente. Algo que poderia demorar dias, meses, o quanto eu pudesse agüentar e o quanto ainda tivesse graça para ela. E meus caros, confesso que já estava quase no meu limite. Aliás, a situação toda me fez acostumar a caminhar no meu limite, à espera da última gota d’água. Era divertido para ela me ver desorientado, cauteloso e atento. Eu só tinha as minhas frases e a espera por um olhar cínico, crítico, irônico, sincero, ou, enfim, e muito improvável, sereno.

A serenidade estava muito longe de mim, ela era como areia movediça, engolindo todo o meu corpo, me deixando sem saída. Aquela mulher que começava a despertar o meu ódio, a minha fúria e, rapidamente, o meu amor. Criando uma descrição clara do que era aquele sentimento despertador de clichês, que era impossível achar qualquer definição. O amor, em mim, era euforia. Parecia que qualquer frase, qualquer movimento, colocava todo o meu ser para dentro de algo que jamais poderia me livrar. Estava definido: eu era, por inteiro, dela.

Tags: contos

Catarina

Nada de especial na primeira impressão. Ela não pararia quarteirões, digo até que dificilmente é notada por onde passa. Tem a cara sempre fechada com cada traço, cada expressão lacônica carregada de decepções e tristezas. Nunca parou solteira, sempre conquistou caras que não precisam de dançarinas do Faustão. Mas em cada olhada, até quando sorri, é notável um pedacinho de solidão, que deixa escapar por onde passa. Tem um jeito de andar especial, delicado, como quem anda em um piso escorregadio, recém lavado. Toma todo o cuidado para não sujar, nem cair. Tem um bom senso de humor e tem até bom gosto. Tenta, por vezes, e sem sucesso, transparecer algo que não é, como cada ser humano, mas nunca me enganou. Enganou aos outros, não a mim. Com os olhos negros, cruéis e tentadores da música “chão da praça”, ela atua, mostra força, mostra fraqueza, mas sempre via algo a mais, o problema é que nunca pude saber que diabos era esse “algo a mais”.

Já quase me apaixonei por Catarina várias vezes, e tenho até impressão dela já ter percebido as minhas tentativas de flertes, que por vezes, ela até retribuía. Nossas conversas, quando sozinhos, sempre soltavam algo no ar, algo intocável, irreconhecível. Com algumas bebidas já cheguei a pensar “um dia ela será minha”, com mais algumas já me vi entre seus braços, e tenho a impressão de que ela já meditou sobre a hipótese também, entretanto sou tolo e inteligente o suficiente para saber que nunca daria certo. “Chão da praça” já teve várias versões, várias vozes. Catarina é da versão de Caetano Veloso, e não há uma vez que Caetano cante no “Multishow ao vivo” que meu coração não me leve para os olhos de Catarina. Só Caetano, no início da música, e a frase “olhos negros cruéis tentadores”, sem guitarras, sem bateria, sem baixo, numa música que nem consigo dizer ao certo se gosto ou não.

Há naqueles olhos o mistério ideal, que mentem e confundem, mas que, principalmente, convidam. 

Tags: contos